
Identidade digital: entre a cidadania, a competência e a consciência na sociedade em rede
No cenário digital atual, a identidade digital representa muito mais do que um perfil online: é o conjunto de competências, dados, comportamentos e credenciais que permitem a cada cidadão operar, interagir e proteger-se de forma autónoma e segura no ambiente online. Funciona como uma “carta de condução digital”. Tal como uma carta de condução física autoriza a condução de um veículo, esta metáfora simboliza o domínio das competências tecnológicas essenciais. Estas abrangem desde a utilização segura de plataformas digitais até à gestão adequada dos dados pessoais, incluindo a nossa pegada digital.
A sociedade contemporânea testemunha uma crescente integração das tecnologias digitais em praticamente todos os aspetos da vida quotidiana. Desde a comunicação e o entretenimento até ao trabalho e à participação cívica, o mundo torna-se cada vez mais dependente de ferramentas e plataformas digitais. Neste contexto de transformação digital acelerada, emerge a necessidade fundamental de representações digitais confiáveis de indivíduos e entidades. A identidade digital assume, assim, um papel central, não apenas como uma conveniência, mas como um requisito essencial para a participação plena nesta nova realidade. A proliferação de serviços online e a crescente interação no ambiente virtual exigem uma forma de identificação que espelhe a validade dos documentos físicos no mundo físico, permitindo comprovar quem somos no ciberespaço.
A importância da identidade digital no cenário atual é inegável. Facilita o acesso a uma vasta gama de serviços online, tanto públicos como privados, simplificando processos e eliminando barreiras geográficas. Permite a realização de transações seguras, desde compras online até operações bancárias, garantindo a autenticidade das partes envolvidas. Além disso, a identidade digital capacita os indivíduos a comprovarem atributos e direitos no ambiente digital, como a idade para aceder a determinados conteúdos ou qualificações profissionais para candidatar-se a empregos. As redes sociais, em particular, desempenham um papel relevante neste processo, funcionando como espaços de expressão e construção da identidade digital através da partilha seletiva de conteúdos e da interação com outros utilizadores. Em suma, a identidade digital não é apenas uma ferramenta tecnológica, mas sim a base para a confiança e a segurança nas interações online, tornando-se indispensável para a participação ativa e informada na sociedade digital. A ausência de uma identidade digital pode levar à exclusão digital, limitando as oportunidades e o acesso a serviços essenciais, tal como acontece no mundo físico sem a devida documentação.
Conceito de identidade digital
Para compreender plenamente a sua relevância, é crucial desmistificar o conceito de identidade digital. Numa perspetiva abrangente, a identidade digital pode ser definida como a representação digital de uma pessoa física ou jurídica no ambiente online. Ela consiste num conjunto de dados interligados que identificam um indivíduo ou uma organização no mundo virtual, permitindo a sua autenticação e o acesso a diversos serviços. Esta representação vai além de um simples nome de utilizador e palavra-passe, constituindo um complexo ecossistema de informações que moldam a presença online de cada entidade.
A identidade digital é composta por diversos componentes essenciais. Os atributos representam as informações sobre o sujeito, como o nome, a data de nascimento, as qualificações profissionais ou o histórico médico. As credenciais são os dados utilizados para autenticação e verificação da identidade, incluindo nomes de utilizador, palavras-passe, dados biométricos e certificados digitais. O histórico de atividades online, também conhecido como pegada digital, é o rastro de dados criado pelas interações do utilizador na internet, como os sites visitados, os e-mails enviados, as publicações em redes sociais e as compras online. Embora a pegada digital seja uma consequência da atividade online, ela torna-se um componente crucial da identidade digital, influenciando a reputação e a perceção que outros têm de nós no mundo virtual. Cada interação online deixa um registo, que pode ser monitorizado e analisado, com impacto em oportunidades de emprego, relacionamentos pessoais e até mesmo a segurança online.
No mundo atual, a identidade digital assume uma importância fulcral. Constitui a chave para aceder a uma vasta gama de serviços e realizar transações de forma eficiente e segura. Serve como base para a confiança e a segurança nas interações online, permitindo que indivíduos e organizações confirmem a sua autenticidade. Além disso, a identidade digital é fundamental para a participação na economia digital, facilitando o comércio eletrónico e outras atividades online. Num cenário cada vez mais digital, a capacidade de gerir e proteger a própria identidade digital é essencial para a autonomia e o bem-estar dos indivíduos. Ela permite que as pessoas se autentiquem, provem quem são e acedam a serviços de forma conveniente, tornando-se um pilar da vida moderna.
Cidadania e ética online
A cidadania digital refere-se aos direitos e deveres dos cidadãos no espaço digital. Entre os direitos fundamentais dos cidadãos neste domínio, destacam-se o direito à privacidade e à proteção dos seus dados pessoais, o direito à liberdade de expressão, o direito ao acesso à informação, e o direito à participação cívica através de plataformas e ferramentas online. Estes direitos, embora análogos aos direitos no mundo físico, apresentam desafios únicos na sua aplicação e proteção no ambiente digital.
Paralelamente aos direitos, os cidadãos digitais também possuem deveres. Estes incluem o dever de respeitar a privacidade e os dados de outros utilizadores, de adotarem uma conduta ética e responsável online, evitando comportamentos como o cyberbullying, o discurso de ódio e a disseminação de notícias falsas, e de contribuírem para um ambiente online seguro e positivo para todos. Implica, assim, assumir um conjunto de responsabilidades que visam garantir o bem-estar coletivo no espaço digital.
A ética online fornece os princípios que devem guiar o comportamento dos cidadãos no espaço digital. Estes princípios incluem o respeito pelos outros e pela diversidade de opiniões, a responsabilidade pelas próprias ações e pelo seu impacto no ambiente online, a integridade ao demonstrar autenticidade e transparência nas interações, e a empatia perante as experiências e visões dos outros. A ética digital é um elemento estruturante para o desenvolvimento de uma sociedade digital mais justa e inclusiva, desempenhando um papel crucial na dissuasão de condutas nocivas e na criação de um ambiente online saudável e respeitador.
A iniciativa europeia de identidade digital
A Regulamentação Europeia de Identidade Digital (eIDAS 2.0) surge num contexto de crescente digitalização e visa garantir o bom funcionamento do mercado europeu, proporcionando um elevado nível de segurança para os meios de identificação eletrónica e os serviços de confiança em toda a União Europeia. O objetivo principal é capacitar os cidadãos, residentes e empresas da UE a participarem de forma segura na sociedade digital e a acederem a serviços públicos e privados online em toda a UE. Esta iniciativa procura criar um ecossistema de identidade digital interoperável, seguro e centrado no utilizador, quebrando as barreiras impostas pela fragmentação dos sistemas de identidade digital nacionais e facilitando a interação transfronteiriça.
A iniciativa assenta em diversos componentes-chave. As Carteiras de Identidade Digital Europeias (EU Digital Identity Wallets) são aplicações móveis que permitirão aos cidadãos identificar-se online e offline, armazenar e partilhar documentos digitais de forma segura. Uma das principais características será a funcionalidade transfronteiriça, garantindo que a identidade digital seja reconhecida e aceite em todos os Estados-Membros da UE. O controlo do utilizador e a privacidade são aspetos centrais, Assegurando aos indivíduos total autonomia na gestão das informações que optam por divulgar, enquanto promove um modelo de design centrado na proteção da privacidade, desprovido de sistemas de monitorização ou recolha automatizada de dados. Para além da identidade, a iniciativa foca-se nos atributos digitais, como qualificações profissionais ou idade, permitindo a sua verificação para acesso a serviços. A segurança e a confiança são pilares fundamentais, visando criar um sistema universal, confiável e seguro para identificação e autenticação. A interoperabilidade será assegurada através de normas e especificações uniformes para as carteiras digitais. A emissão, uso e revogação da identidade digital serão gratuitos para pessoas singulares, e os componentes de software serão de código aberto. A iniciativa prevê a integração com os atuais sistemas nacionais de identificação eletrónica existentes (autenticação.gov), e os casos de uso serão diversos, desde a abertura de contas bancárias até à prova de idade e usufruir de serviços.
A carteira de identidade digital europeia tem o potencial de simplificar significativamente a vida dos cidadãos e das empresas, facilitando o acesso a serviços e a realização de transações em toda a UE. Ao disponibilizar uma identidade reconhecida em toda a Europa, esta iniciativa poderá impulsionar o mercado único digital e promover a mobilidade de pessoas e serviços.
O futuro da iniciativa europeia de identidade digital apresenta um potencial significativo para impulsionar a economia digital. Será também fundamental garantir a inclusão e a acessibilidade da solução para todos os cidadãos, independentemente das suas capacidades ou do seu nível de literacia digital. O sucesso desta iniciativa dependerá da capacidade de superar desafios técnicos, de segurança e de adoção, garantindo beneficio para todos os cidadãos e empresas da UE.
Competências para o trabalho
A identidade digital, enquanto componente central das interações numa sociedade em rede, tem vindo a influenciar de forma significativa tanto o ambiente laboral como o mercado de trabalho. A sua gestão e validação seguras são essenciais, não só para aceder a serviços digitais, mas também para moldar a forma como as oportunidades profissionais são criadas, acedidas e geridas, afetando diretamente indivíduos e organizações.
Para o profissional, dispor de uma identidade digital verificável constitui um verdadeiro ativo estratégico. A possibilidade de apresentar credenciais digitais autenticadas – como diplomas, certificados de competências ou licenças profissionais – de forma segura e imediata simplifica os processos de candidatura e de mobilidade profissional, inclusive a nível europeu. Para além disso, uma identidade digital robusta permite a utilização de assinaturas eletrónicas qualificadas, com validade jurídica equiparada à assinatura manuscrita, facilitando a formalização de contratos e de outros documentos oficiais sem a necessidade de presença física. Assim, uma gestão eficaz da identidade digital profissional contribui para um acesso mais célere a oportunidades e reforça a autonomia e a segurança dos dados pessoais no contexto laboral.
No que diz respeito às organizações e ao mercado em geral, a adoção de sistemas de identidade digital bem estruturados traz benefícios significativos em termos de eficiência e segurança. A verificação fiável da identidade e das qualificações dos candidatos e colaboradores agiliza os processos de recrutamento e integração, reduz o risco de fraudes e assegura o cumprimento das normas regulamentares. Em modelos de trabalho cada vez mais flexíveis – nomeadamente nos contextos remoto e híbrido – a autenticação segura mediante a identidade digital ajuda a proteger o acesso a sistemas e dados corporativos. Para além disso, a confiança gerada por identidades verificadas promove relações laborais mais transparentes e sólidas, contribuindo para um mercado de trabalho mais íntegro e competitivo.
É também relevante sublinhar a crescente convergência entre a identidade digital pessoal e a profissional. Em plataformas como o LinkedIn ou em ferramentas colaborativas internas, a linha que separa o perfil pessoal do profissional torna-se, por vezes, ténue, e a pegada digital individual pode influenciar a perceção do profissional. Gerir esta interligação requer um elevado grau de discernimento e literacia digital, de forma a equilibrar a autenticidade pessoal com a construção de uma imagem profissional coerente. Trata-se de gerir ativamente a reputação online, minimizando os riscos e utilizando a presença digital de forma estratégica para o desenvolvimento de carreira e relações profissionais, sem comprometer a privacidade nem a segurança.
Esta abordagem integrada mostra como a identidade digital não só redefine as práticas laborais contemporâneas, mas também se converte num elemento crucial para potenciar a inovação e a competitividade no mercado de trabalho atual.
A (des)construção da nossa identidade nas redes sociais
A identidade digital de um indivíduo nas redes sociais constitui frequentemente um conjunto de pseudónimos contextuais, nos quais se exploram diferentes dimensões do “eu” conforme o público, o propósito comunicacional ou o espaço virtual em causa. Estas plataformas tornaram‑se palcos dinâmicos de curadoria identitária, em que o utilizador constrói e gere múltiplas manifestações do seu “eu digital”, num processo contínuo de interação social e de adaptabilidade aos algoritmos subjacentes. Um elemento fulcral nesta construção é o controlo seletivo da informação. Os utilizadores optam conscienciosamente pelo material que divulgam, desde fotografias até ao testemunho de quotidianos e opiniões, gerando narrativas digitais que enfatizam aspetos positivos ou profissionalmente relevantes da sua realidade. Embora legítimo, este procedimento pode conduzir a versões idealizadas do “eu digital” e gerar tensão entre a imagem projetada e a experiência vivida, acrescendo pressões no sentido da manutenção constante de uma identidade bem‑sucessida.
As reações sociais — nomeadamente “gostos”, comentários e partilhas — funcionam como mecanismos de validação que reforçam determinados comportamentos e moldam a perceção recíproca das identidades digitais. A pertença a grupos ou comunidades virtuais contribui, igualmente, para a formação de identidades sociais partilhadas, baseadas em interesses, valores e dinâmicas de pertença específicas de cada contexto. O recurso a anonimato ou pseudónimos permite a experimentação de facetas identitárias adicionais, como perfis distintos para fins lúdicos, pessoais ou profissionais. Tal flexibilidade favorece a exploração e a preservação da privacidade, mas suscita igualmente questões de responsabilidade ética e potenciais abusos.
O saudoso Google Plus (G+), lançado em 2011, constitui um estudo de caso paradigmático das tensões entre pseudónimos e verificação de identidade. Ao vincular as interações sociais e pesquisas à Conta Google e ao exigir o uso de nomes reais, o G+ procurou relacionar a identidade digital numa identidade civil verificável. A obrigatoriedade de nome real visava reforçar autenticidade e responsabilidade, critérios essenciais para a reputação online. Contudo, a política de “nome único” encontrou resistência face à prática do uso de alcunhas e pseudónimos. Incidentes de segurança que expuseram dados de utilizadores quebraram a confiança, evidenciando a fragilidade dos ambientes digitais e a importância da segurança e privacidade na gestão da identidade. O encerramento do G+ em 2019, ilustra os desafios de conciliar liberdade identitária, viabilidade comercial e proteção de dados num ecossistema em constante mutação.
Atualmente, redes de cariz profissional, como o LinkedIn, usam mecanismos de verificação de identidade, seja por verificação de documentos ou validação pelos pares. A atribuição de selos de confiança (badges) a perfis de referência aumenta a credibilidade individual e assegura maior responsabilidade nas interações, combatendo perfis falsos e elevando a fidedignidade das identidades profissionais.
Também o papel dos algoritmos e das bolhas informativas não deve ser subestimado, pois ao filtrar conteúdo estes mecanismos influenciam subtilmente a construção das várias facetas identitárias, podendo restringir ou moldar o pensamento crítico e a exposição a perspetivas divergentes. A gestão da identidade digital nas redes sociais exige do indivíduo uma abordagem crítica e consciente, equilibrando a liberdade com a necessidade de verificação e transparência.
Segurança e privacidade
A crescente centralidade da identidade digital no quotidiano dos indivíduos e das organizações exige uma abordagem integrada de segurança e privacidade, que vá além das medidas técnicas convencionais. A apropriação indevida de atributos pessoais, desde dados de contacto e números de identificação até certificações académicas ou profissionais, pode comprometer a reputação, acarretar responsabilidades legais e causar prejuízos financeiros. Por isso, o regime jurídico europeu, assente nos princípios de limitação de finalidade, minimização de dados, conservação restrita e responsabilidade proativa (privacy by design e accountability), estabelece que qualquer tratamento de dados deve obedecer a pressupostos de transparência e consentimento informado, conferindo aos titulares direitos reforçados como acesso, retificação, apagamento, portabilidade e oposição. Os soluções tecnológicas para verificação de identidade, com a sua ênfase na assinatura eletrónica qualificada e na autenticação certificada, proporcionam solidez das transações digitais.
Apesar da estrutura legislativa, a identidade digital continua dispersa por múltiplos perfis, pseudónimos e plataformas, o que dificulta a consolidação e o controlo integral dos dados pessoais e profissionais por parte de cada indivíduo. A fragmentação identitária, conjugada com a persistência de vestígios digitais, pode impedir o exercício pleno do direito ao esquecimento e a correta gestão da reputação online, sobretudo quando perfis falsos ou usurpados se confundem com entidades legítimas. Importa também reconhecer que a segurança e a privacidade da identidade digital não são meras preocupações técnicas, mas sim desafios estruturais que exigem literacia, vigilância contínua, assim como nas organizações uma cultura de proteção de dados. A gestão consciente das múltiplas personas deve pautar‑se por critérios de autenticidade, integridade e respeito pelos direitos fundamentais, garantindo que a construção da reputação online decorra num ambiente seguro, transparente e responsável.
Inclusão e acessibilidade
A inclusão e acessibilidade digital representam um imperativo na era contemporânea, que visa garantir que todos os indivíduos, independentemente das suas capacidades ou circunstâncias, possam participar plenamente no mundo digital. Isto implica incluir pessoas com deficiências diversas, sejam elas visuais, auditivas, motoras ou cognitivas, bem como indivíduos com acesso limitado à tecnologia devido a questões socioeconómicas ou geográficas. A inclusão digital não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma necessidade para que a transformação digital beneficie a todos e não crie novas formas de exclusão. A tecnologia deve ser concebida e implementada de forma a ser acessível a todos, independentemente das suas habilidades ou condições.
No entanto, existem diversas barreiras que dificultam a inclusão e a acessibilidade digital. A falta de acesso a dispositivos adequados ou acesso à internet são umas das principais barreiras. Também o design de muitos websites e aplicações não são concebidos tendo em conta a acessibilidade, dificultando a sua utilização por pessoas com deficiências. Superar estas barreiras requer um esforço conjunto das organizações e dos próprios indivíduos, através de investimentos em infraestrutura, educação, políticas e design. Promover a inclusão digital não se limita a fornecer acesso à tecnologia, mas também a garantir que as pessoas tenham as habilidades e o apoio necessários para utilizá-la de forma plena e eficaz.
Avaliação da maturidade digital
A avaliação da maturidade digital de indivíduos e grupos tornou-se uma necessidade premente na sociedade contemporânea. Esta avaliação permite identificar o nível de habilidades digitais existentes, adaptar programas de capacitação e inclusão digital de forma mais eficaz, e medir o progresso das iniciativas de literacia digital implementadas. A avaliação da maturidade digital fornece dados cruciais para o desenvolvimento de políticas e programas de inclusão digital que sejam verdadeiramente eficazes, permitindo direcionar recursos e esforços para as áreas onde as necessidades são mais significativas.
Diversos frameworks de competências digitais surgiram como ferramentas valiosas neste processo. O DigComp (European Digital Competence Framework) define as aptidões digitais essenciais em cinco áreas distintas: informação e literacia de dados, comunicação e colaboração, criação de conteúdo digital, segurança e resolução de problemas. Este framework oferece um modelo abrangente para entender e avaliar as competências digitais necessárias na sociedade atual, facilitando a identificação de lacunas e a definição de objetivos de aprendizagem claros e estruturados. Em Portugal, a INCoDe 2030 (Iniciativa Nacional Competências Digitais Portugal) representa um programa governamental dedicado à promoção dessas habilidades em diversas áreas, incluindo educação, formação, inclusão, investigação e inovação. Iniciativas nacionais como esta demonstram o reconhecimento da importância das competências digitais a nível governamental, implementando estratégias e ações em múltiplas frentes para elevar o nível de literacia digital da população portuguesa.
Para além dos frameworks, existem diversas ferramentas de avaliação concretas. Plataformas de diagnóstico de competências, como a oferecida pela Academia Portugal Digital, proporcionam uma avaliação mais detalhada do nível de proficiência digital dos indivíduos. Também a NAU, através de vários cursos submetidos por parceiros, de onde se destaca o curso "Identidade digital: Pegada digital" é um exemplo prático de um recurso para desenvolver a literacia digital. O conteúdo deste curso aborda a definição e a importância da pegada digital, os métodos de monitorização utilizados, o impacto na privacidade e na reputação online, as estratégias para gerir e minimizar a pegada digital, e os riscos associados. A sua relevância reside no facto de oferecer conhecimento fundamental para desenvolver a literacia digital no que diz respeito à gestão da identidade online.
Num plano de certificação de das habilidades, o projeto da "Carta Europeia de Condução em Informática (European Computer Driving Licence) - Certificado ECDL Core (ECDL Core Certificate)" merece especial destaque. O seu objetivo principal é fornecer uma certificação internacionalmente reconhecida de competências básicas de informática. A sua relevância reside no facto de ser amplamente reconhecido por empregadores em todo o mundo como prova de competência no uso de computadores e aplicações comuns. Os módulos típicos do ECDL Core abrangem áreas como os essenciais de computador, a segurança informática, a navegação na internet e a gestão do e-mail, o processamento de texto, as folhas de cálculo, as apresentações e as bases de dados. O ECDL/ICDL oferece uma estrutura modular que permite aos indivíduos certificarem as aptidões digitais mais relevantes para as suas necessidades específicas, tornando-o uma ferramenta valiosa para utilizadores que desejam validar as suas habilidades.
As consequências da iliteracia digital
A falta de literacia digital acarreta uma série de implicações negativas para os indivíduos, para a sociedade como um todo e para a economia. Para os indivíduos, a iliteracia digital dificulta o acesso a serviços online essenciais, como o seu próprio exercício de direitos. Resulta em menores oportunidades de emprego e desenvolvimento profissional, uma vez que muitas profissões exigem competências digitais. Aumenta a vulnerabilidade a fraudes e golpes online, assim como, pode levar ao isolamento social e à exclusão digital, impedindo a participação plena na sociedade moderna.
Para a sociedade, a iliteracia digital contribui para o aumento da desigualdade social e económica, criando uma divisão entre aqueles que têm acesso e competências digitais e aqueles que não têm. Resulta numa menor participação cívica e democrática online, limitando o potencial da tecnologia para fortalecer a democracia. Dificulta também a implementação de políticas públicas digitais eficazes, uma vez que uma parcela significativa da população pode não conseguir beneficiar delas.
No que diz respeito à economia, a falta de literacia digital leva a uma menor produtividade e competitividade das empresas, que dependem cada vez mais de tecnologias digitais. Dificulta o o acesso a emprego que exige competências digitais, criando um desajuste entre a oferta e a procura de trabalho. Em última análise, a iliteracia digital representa um obstáculo ao crescimento económico e à inovação num mundo cada vez mais digitalizado.
Em suma, a identidade digital emergiu como um elemento fulcral para a era digital, influenciando as nossas interações sociais, profissionais e cívicas. A sua importância reside na capacidade de facilitar o acesso a serviços, garantir a segurança nas transações e capacitar os indivíduos no exercício dos seus direitos no ambiente online. Contudo, a plena realização dos benefícios da identidade digital depende intrinsecamente da proficiência digital dos cidadãos, da implementação de medidas robustas de segurança e privacidade, da promoção da cidadania e ética digital, e da garantia da inclusão e acessibilidade para todos. A falta de literacia digital, por sua vez, acarreta consequências significativas para os indivíduos, a sociedade e a economia, sendo fulcral de investir, e auto-investir, na capacitação digital.
A iniciativa europeia de identidade digital representa um passo ambicioso e promissor para a criação de um ecossistema digital mais seguro, eficiente e inclusivo em toda a União Europeia. Ao proporcionar uma identidade digital com reconhecimento internacional e centrada no controlo do utilizador, esta iniciativa tem o potencial de transformar a forma como interagimos no mundo digital. No entanto, o seu sucesso dependerá da capacidade de superar os desafios de implementação e de garantir a confiança e a adesão dos cidadãos e das organizações.
Em última análise, navegar com segurança e sucesso no universo digital exige um compromisso contínuo de aprendizagem e de desenvolvimento de competências digitais. Cada indivíduo tem a responsabilidade de gerir a sua identidade digital de forma consciente e de adotar práticas seguras para proteger as suas informações e a sua privacidade, mesmo que já exista um esforço das organizações para essa proteção. Promover um ambiente digital seguro, ético e inclusivo é uma responsabilidade coletiva que requer a colaboração de todos.
Referências e inspiração
- academiaportugaldigital.pt
- cncs.gov.pt/pt/cidadao/?persona=citizen
- commission.europa.eu/strategy-and-policy/priorities-2019-2024/europe-fit-digital-age/european-digital-identity
- digital-identity-wallet.eu
- digital-strategy.ec.europa.eu/pt/policies/eudi-regulation
- edoc.coe.int/en/data-protection/11578-guidelines-on-national-digital-identity
- enisa.europa.eu/audience/citizens
- european-digital-identity-regulation.com
- github.com/eu-digital-identity-wallet
- gns.gov.pt/pt/regulamento-eidas-entidade
- incode2030.gov.pt
- iproov.com/pt/biometric-encyclopedia/digital-identity
- joint-research-centre.ec.europa.eu/oldpage-digcomp/digcomp-framework
- nau.edu.pt
- portugal.representation.ec.europa.eu/news/regras-europeias-sobre-identidade-digital-entram-em-vigor-2024-05-21
Duarte Dionísio 

